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Um dos palcos montados no Parque Municipal, e em qual tocamos.

No meio da minha turnê fracassada pelos concursos públicos, eu tive um palpite. E quando a ele terminantemente fingi não ouvir, sobrevieram palpitações. Esses sintomas me diziam que se eu não estivesse, no último dia 4, sobre o palco, eu iria detestar a mim e todo o meu pacote para sempre.

Ainda bem que geminianos têm essa herança cósmica que os impele à inconstância. E estive, acredito que bem, sobre o palco do Conexão Vivo. Junto a todas as outras vinte sôfregas almas que resistem neste aglomerado de sensações, sugestões e desejos de comunicações que é a Rosa dos Ventos.

Mais de 3 mil parentes, amigos e pessoas-que-queriam-mesmo-era-assistir-logo-a-Fernanda-Takai compareceram ao Parque Municipal e gostaram ou aplaudiram ou participaram do espetáculo. Vi gente que cantava, que chorava e que acreditou na viabilidade do sonho de estar ali, já que nós, sendo o que somos, também estávamos.

Demorei uma semana para descer do pedestal. Mas o cotidiano é mesmo implacável: a aura que pensava me circundar era uma nuvem de metano irradiando do Arrudas; a multidão de pé eram os espoliados a disputar comigo uma nesga de chão do ônibus no trânsito estagnado, recriando no asfalto a celeridade do fluir das águas do rio-fossa. As pessoas que vinham ter conosco não eram senão um chefe hidrofóbico... Quando estava já decantado na minha humanidade, aí chegou o vídeo.

E a aquele nevoeiro de divindade me arrebatou de novo. No meio do expediente. De repente, os texto jornalísticos que labuto são o solo de Sovone. Quando alguém me solicita algo, está me tirando pra dançar em Sorôco. Quando o chefe rosna, está fazendo percussão em Geraldinos e Arquibaldos. Ah, tão rico quando o menino finalmente encontra sua Estrela Natal...
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Sabe, às vezes penso que esse negócio de destino podia ser verdade.

Por que a gente já não sai da barriga com as coisas prontas? Por que a gente tem que fazer escolhas? Por que dói escolher? Por que é tão difícil decidir o que fazer da vida? Por que nosso tempo nunca é suficiente? Por que a semana não tem 10 dias? Por que o dia não tem 28 horas? Por que existem perguntas sem respostas?
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"Onde não estamos é que estamos bem. Já não estamos no passado, e então ele parece-nos belíssimo."( Anton Tchékhov )
"O futuro tormenta-nos e o passado retém-nos. É por isso que o presente nos foge."( Gustave Flaubert )
"O passado existe quando se está infeliz."( Louise Levêque Vilmorin )*

Nestas últimas semanas tenho esbarrado muitíssimo com o meu passado. Amigos de faculdade, colegas do Ensino Fundamental e Médio, companheiros do Coral da FaLe, sonhos que refazem a escrita de coisas vividas ou outras nem sequer pensadas. Que será que significa isso tudo? O que o universo quer provar? Por que dessas exumações?

Tenho estado tão inquieto... E a pergunta que insurge: por que a gente não consegue transplantar a felicidade de antes? E por que, quando daquela relembra, sente os olhos marejados, a voz embargada, como se o tudo vivido tivesse transcorrido, assim, no mais imperfeito pretérito ?
* Frases retiradas do site webfrases.
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Sabe? A vida às vezes cheira à merda. Aquele azedume na boca, arremedando o da alma. Uma esdrúxula competição de quem fulge menos centelhas. Sabe como é?

Mas hoje acordei com vontade de cantar. Um entoar choroso. Quer saber meu mais ponderoso pecado? Em geral, trancafio no porão a minha alma. Malditamente, às vezes ela se solta, como por quebranto (indulto de Deus?), e só faz prantear. Água ou sangue, conforme do momento a densidade.

Antes de proceder ao veredicto, não se engane. Não está reclusa à minha revelia. Cerceada se encontra porque proporcional e inversa ventura me representa. Estivesse ela no comando, talvez eu já tivesse retornado à duna terrosa da criação.

Alma às vezes é um insulto à vida que habitamos. É ela esse quasímodo que me compele ao soluço durante a lamúria que, ora!, ela mesma incitou. É ela quem blefa quando diz que música é meu magneto, ou que sei tão-somente conversar por escrito. Cantar, assim, é um pedido de resgate impossível. Não o amortizo. Liquide-se, portanto, o refém.

Ah, Deus! Minha vida de plácida e reta senda de volta! O regresso do meu sonso turvo olhar sobre a pátina dos móveis, os alpendres dos imóveis e a uniforme inércia sobre as pessoas! A alma e seus predicados foram o legado do embuste de Pandora. Não cabendo neste meu recipiente, clamo presto e árduo exorcismo.

Cá me encontro mergulhado numa fórmula sem solução. Hoje é o meio de uma semana sem realizações e, para o vindouro, nulidade de perspectivas. Ando iludido entre as inverossimilhanças legais e isso não é tudo. Estou arrebatado de alma. É que ela pulsa, é que ela roga tão sofrido, que quase me compadeço. Mas não me dispo, amigos, de nossa pós-moderna humanidade. Não posso o que sou, quero o que somos. Mas, sabe disso tudo? Sente um fragor putrefeito no ar? Sente um azedume lábios adentro? São os frutos infecundados da maldita alma. Ignoremo-la e permaneçamos assim trotando, bem contemporâneos.
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